Entrevista de Alireza Sheikh Attar, em visita ao Brasil nos dias 12 e 13 de março de 2008


Folha de São Paulo - 14/03/2008

Vice-chanceler iraniano pede pressa à Petrobrás
Por: Samy Adghirni
Enviado Especial a Brasília
O vice-chanceler iraniano, Alireza Sheikh Attar, achou divertida a "coincidência" de sua visita a Brasília com a da secretária de Estado americana, Condoleezza Rice. Ele teve agenda intensa na capital, com encontros em vários ministérios e no Congresso.
Em entrevista á Folha, Sheikh Attar acusou a Petrobrás de não investir mais no Irã por causa de pressões dos Estados Unidos e afirmou que o governo iraniano poderia facilitar o acesso de empresas brasileiras no Iraque, cujo governo mantém relações privilegiadas com teerã. O número dois da diplomacia iraniana confirmou a vinda ao Brasil, ainda neste ano, do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Folha – A atuação da Petrobrás no Irã é um dos assuntos tratados em sua visita a Brasília. Como andam os projetos de Investimento?

Alireza Sheikh Attar – O Irã tem as segundas maiores reservas mundiais de gás e de petróleo. O interesse da Petrobrás no Irã se reflete no fato de seu escritório para todo o Oriente Médio sem em Teerã. A Petrobrás sabe da quantidade de coisas que pode fazer no Irã. Mas acho que há um problema no processo de tomada de decisões na empresa...
Folha – A que problema o senhor se refere?

Sheikh Attar – É possível que haja pressões por parte de vizinhos do Norte. Mas tudo bem. Nem as sanções americanas impediram o formidável crescimento de nossa indústria de gás e de petróleo. Até petroleiras dos EUA imploram para atuar no Irã. A bola está no campo da Petrobrás.
            A concorrência na área energética é terrível. Temos acordos com empresas de vários países e já fizemos nossa oferta à Petrobrás. Cabe a ela decidir. Não pressionamos nem imploramos sua participação no Irã. Mas não podemos ficar sentados esperando.

Folha – O Irã poderia abrir as portas do Iraque para o Brasil?

Sheikh Attar – Foi o que eu expliquei às autoridades brasileiras. A questão não é mais saber como aumentar nosso comércio bilateral. Não vim aqui para pedir commodities, mas para explicar o que pode ser feito em matéria de investimento e de serviços. Há uma infinidade de projetos no Iraque. Para atendê-los, fornecemos ao governo iraquiano um crédido de um US$ 1 bilhão, sob a condição de que esse dinheiro seja usado com empresas iranianas.
            É aí que entram as possibilidades de joint-ventures ou terceirização a outros países, como o Brasil. Chega a hora de atuarmos juntos em terceiros países. Ambos temos forte presença na África, América Latina, Ásia...

Folha – Há dois anos, Lula convidou Ahmadinejad a vir ao Brasil. Quando ocorrerá essa visita?

Sheikh Attar – Este é um dos assuntos que vim tratar em Brasília. Estou confiante de que essa visita acontecerá ainda neste ano. Os dois presidentes se encontraram na posse de Rafael Correa e acho que eles gostaram bastante um do outro (risos). Eles compartilham uma visão do mundo muito parecida. Ambos valorizam decisões soberanas, a defesa do multilateralismo e o combate à injustiça nas relações internacionais.

Folha – O que responde aos que acusam o presidente Ahmadinead de usar o programa nuclear para desviar a atenção dos iranianos em relação a problemas como desemprego e inflação em alta?

Sheikh Attar – A economia iraniana está brilhando. Nosso crescimento é de 5,5%, temos US$ 70 bilhões em reservas externas e o investimento estrangeiro superou US$ 10 bilhões nos últimos anos. Nossas exportações estão em alta constante, não só por causa do petróleo. E nós vamos combater a inflação, assim como o Brasil fez. A questão nuclear vai muito além da busca por novas fontes de energia para responder à crescente demanda interna.
            Nosso programa é pacífico e está conforme o que determina o TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear). O último relatório da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) reitera que não é evidências de que o Irã busque um programa não-pacífico.

            Estamos atuando dentro dos nossos direitos legais. Se não resistirmos, o Brasil e muitos outros países serão vítimas do método, usado por alguns, que consiste em impor uma visão hostil em detrimento da legalidade. É uma questão de princípio. Se a legalidade for ferida, todos os países em desenvolvimento ficarão desamparados.

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